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Uso de medicamento irregular para emagrecer leva jovem de 23 anos à UTI; após 69 dias de internação, ela recebe alta no Hospital Edson Ramalho

publicado: 28/06/2026 11h23, última modificação: 28/06/2026 11h23

Um recomeço, novos planos e a certeza de que a saúde vale muito mais do que qualquer padrão estético. Foi assim que Shirley Gomes, de 23 anos, deixou o Hospital do Servidor General Edson Ramalho (HSGER), em João Pessoa, após 69 dias de uma luta intensa pela vida. A alta hospitalar simbolizou não apenas o fim de um tratamento complexo, mas também o início de uma nova fase para a jovem, que quase morreu após usar um medicamento para emagrecimento adquirido de forma irregular, sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A história começou durante uma viagem de passeio a São Paulo. Longe da família e acreditando que faria apenas um procedimento simples para reduzir uma pequena gordura abdominal que a incomodava, Shirley aplicou algumas doses de “Mounjaro” adquirido de forma informal, por meio de uma conhecida. O medicamento era proveniente do Paraguai e não possuía autorização da Anvisa para comercialização no Brasil.

No dia seguinte à aplicação, surgiram os primeiros sintomas. "Eu só queria baixar uma barriguinha. No outro dia comecei a vomitar, minha barriga começou a estender e a dor só aumentava. Nunca imaginei que fosse acontecer uma coisa dessas", relembrou.

O que era para ser apenas um passeio transformou-se em um pesadelo. O quadro evoluiu rapidamente para uma pancreatite aguda grave induzida pelo medicamento. Shirley precisou ser internada às pressas em um hospital de São Paulo, onde permaneceu 44 dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), parte desse período sob ventilação mecânica.

Sozinha na maior parte da internação, distante dos familiares, enfrentou momentos de medo e incerteza. “Eu só lembro dos três primeiros dias. No terceiro dia, lembro de ouvir o médico falar que precisava ser entubada. Pronto. Depois, lembro de acordar. E só”, relatou Shirley.

Complicações exigiram tratamento especializado

Após receber alta em São Paulo, Shirley retornou para a Paraíba. Apenas seis dias depois, voltou a passar mal e procurou atendimento em Catolé do Rocha. Diante da gravidade do quadro, foi regulada para o Hospital do Servidor General Edson Ramalho, unidade administrada pela Fundação Paraibana de Gestão em Saúde (PB Saúde).

Segundo o cirurgião Alexandre Tamiro, que acompanhou a paciente, ela chegou ao hospital apresentando uma das complicações mais complexas da cirurgia digestiva. "Ela ficou internada 44 dias na UTI em São Paulo por causa de uma pancreatite aguda grave medicamentosa. Depois, apresentou uma perfuração de duodeno, foi submetida a uma cirurgia, mas desenvolveu uma fístula entérica. Conseguimos estabilizar o quadro utilizando um kit específico para tratamento de fístulas. Hoje ela já consegue se alimentar por via oral e tem condições de continuar o tratamento em acompanhamento ambulatorial", explicou.

De acordo com a coordenadora médica do Núcleo Interno de Regulação do HSGER, Indyra Suassuna, a recuperação de Shirley foi resultado da atuação integrada de diversas equipes. "Ela foi regulada de Catolé do Rocha por se tratar de um caso extremamente complexo. Desde a chegada, acompanhamos diariamente sua evolução junto com a Comissão de Pele, a equipe da Cirurgia Geral e todo o corpo clínico do hospital. Hoje, para honra e glória de Deus, ela está de alta. É uma alegria muito grande para todos nós”, comemorou.

Um dos diferenciais no tratamento de Shirley foi a atuação da Comissão de Pele, responsável pelo manejo da fístula com a utilização de um kit especializado. Segundo a coordenadora da Comissão de Pele, Jussara Fernandes, o caso exigiu acompanhamento intensivo e um cuidado especializado. "O tratamento de uma fístula intestinal é extremamente complexo e exige monitoramento contínuo e uma assistência multiprofissional qualificada. O kit fístula foi fundamental para controlar o extravasamento do conteúdo intestinal, proteger a pele, reduzir os riscos de infecção e permitir que a paciente evoluísse de forma segura”, explicou Jussara.

Cada etapa do tratamento foi cuidadosamente planejada para proporcionar as melhores condições de recuperação.

"Hoje estou realizada"

Ao receber a informação sobre sua alta hospitalar, a angústia de Shirley deu lugar ao sorriso largo. O maior desejo era voltar para casa e reencontrar o filho de seis anos. "Estou me sentindo bem. Realizada. Depois de quase três meses internada, poder ir para casa é um presente. Fui muito bem tratada aqui. Não tenho do que reclamar. Desde os médicos e enfermeiros até o pessoal da limpeza e da segurança, todos foram excelentes”, relatou Shirley.

A prima, Karina Araújo, também celebrou o momento. "Quando disseram que ela ia receber alta, eu me arrepiei todinha. É uma bênção, uma glória. A gente esperava muito por esse dia. Ver minha prima saindo daqui é a melhor sensação”, comemorou Karina, que ficou ao lado da prima em quase todo o período de internação.

Mesmo com a alta hospitalar, Shirley continuará sendo acompanhada ambulatorialmente pelas equipes do hospital. “Ela permanece sendo acompanhada regularmente pela nossa equipe multidisciplinar, até ficar 100% recuperada”, frisou Jussara.