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Entre traços e cores, paciente transforma dor em arte durante tratamento no Hospital Edson Ramalho
O que começou como um quadro grave de saúde tem se transformado, dia após dia, em uma história de recomeço. Internada há um mês no Hospital do Servidor General Edson Ramalho (HSGER), em João Pessoa, Amanda Juliany, de 37 anos, encontrou na pintura e na escrita uma forma de ressignificar a própria dor e reconstruir sua trajetória.
A paciente, que enfrenta há mais de duas décadas a dependência química, deu entrada na unidade em estado debilitado, com um tumor vascular no nariz, consequência do uso de substâncias. Hoje, em meio ao tratamento, além da recuperação clínica, ela passou a expressar sentimentos e experiências por meio da arte. As paredes do leito agora carregam desenhos, cores e frases que traduzem sua luta e também sua esperança.
“Eu quero que a minha história sirva de exemplo para que as pessoas possam ir por outro caminho”, afirma Amanda, mãe de três filhos e que desde os 16 anos luta contra o vício. “Da última vez, meu coração chegou a 167 batimentos por minuto. Literalmente, eu sou um milagre”, relata.

Cuidado multiprofissional – A evolução da paciente é resultado de um acompanhamento multiprofissional que integra técnica e acolhimento. Amanda vem sendo assistida por equipes de Medicina, Enfermagem, Psicologia, Nutrição, Fisioterapia e Serviço Social, em um cuidado que vai além do tratamento físico.
“Em termos clínicos, Amanda está ótima e sem infecções. Mas ainda não demos alta porque estamos em busca de uma instituição de reabilitação para garantir a continuidade do cuidado”, explica a médica clínica Ana Beatriz Gomes. Segundo ela, a paciente desenvolveu um granuloma piogênico (tumor vascular benigno que cresce rapidamente e pode causar sangramentos) e segue em avaliação para procedimento cirúrgico.
Durante a internação, Amanda também recuperou peso, passou de 42 para 46 quilos, e apresentou melhora significativa nos quadros de ansiedade e sono após acompanhamento psiquiátrico. Ainda assim, reconhece os desafios que terá pela frente. “Eu tenho medo de sair daqui. Aqui eu estou protegida. Pedi ajuda para ir para uma clínica porque eu não quero voltar para a mesma realidade”, revela.

Humanização – A trajetória de Amanda também é marcada pela criação de vínculos com a equipe do hospital. O cuidado humanizado tem sido um dos pilares da sua recuperação.
“Ela chegou muito debilitada, precisando de ajuda para tudo, inclusive higiene e alimentação. Hoje vemos uma evolução significativa, fruto de um trabalho integrado de toda a equipe”, destaca a coordenadora de Enfermagem da Clínica Médica, Márcia Germana.
O Serviço Social atuou na identificação da rede de apoio da paciente, enquanto a Psicologia passou a acompanhar diariamente seu estado emocional. Foi nesse processo que surgiu a arte como ferramenta terapêutica.
“Durante os atendimentos, buscamos alternativas para aliviar a ansiedade e a angústia. Amanda falou sobre a pintura, e a partir disso passamos a estimular essa prática”, explica a psicóloga Luciana Valadares.

Com o incentivo da equipe, Amanda recebeu desenhos, lápis de cor e um caderno, que ela mesma começou a personalizar. “Antes eu não fazia nada disso. Agora pinto, escrevo todos os dias. Isso tem me ajudado muito”, conta.
Novo caminho possível – Mesmo sem ter passado anteriormente por um processo estruturado de reabilitação, Amanda demonstra consciência sobre sua condição e vontade de mudar. Para a equipe, esse é um sinal importante. “Aos poucos, ela está se reorganizando. O ambiente hospitalar trouxe uma rotina, algo que ela não tinha. E isso faz diferença no processo de recuperação”, avalia a psicóloga.