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Doenças inflamatórias intestinais avançam entre jovens e acendem alerta para diagnóstico precoce

publicado: 18/05/2026 10h15, última modificação: 18/05/2026 10h26

Diarreia persistente, dores abdominais frequentes, perda de peso e cansaço constante têm feito parte da rotina de milhares de jovens brasileiros — muitas vezes sem que eles saibam que podem estar diante de uma doença inflamatória intestinal crônica. O avanço da Doença de Crohn e da Retocolite Ulcerativa (RCU) preocupa especialistas, principalmente pelo aumento de casos entre adultos jovens e pelo diagnóstico tardio.

Dados da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, apontam crescimento de 61% nas internações relacionadas às doenças inflamatórias intestinais entre 2015 e 2024. A estimativa é de até 100 casos para cada 100 mil habitantes no Brasil, com maior concentração entre pessoas de 20 a 29 anos.

Às vésperas do Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais, celebrado em 19 de maio, durante a campanha Maio Roxo, especialistas reforçam o alerta para sintomas que muitas vezes acabam negligenciados.



O cirurgião do aparelho digestivo e cirurgião geral do Hospital Edson Ramalho, Geraldo Camilo, afirma que o perfil dos pacientes mudou nos últimos anos. “As doenças inflamatórias intestinais estão aparecendo cada vez mais em crianças, adolescentes e adultos jovens, inclusive abaixo dos 18 anos”, destaca.

Segundo ele, fatores ligados ao estilo de vida moderno ajudam a explicar esse aumento. “Dietas ultraprocessadas, uso frequente de antibióticos, sedentarismo e até excesso de higiene na infância contribuem para alterações da resposta imune intestinal”, explica. O médico também aponta influência genética associada aos fatores ambientais. “A genética sozinha não explica o aumento dos casos. Ela precisa de gatilhos ambientais, que estão cada vez mais presentes”, observa.

O que são as doenças inflamatórias intestinais?

As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) são doenças crônicas e autoimunes que provocam inflamação no trato digestivo. Elas surgem quando o sistema imunológico passa a atacar células saudáveis do próprio organismo. As duas principais formas são a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa (RCU). “São doenças inflamatórias crônicas que tendem a progredir quando não tratadas”, explica Geraldo Camilo.

Segundo o médico, a Doença de Crohn pode atingir qualquer parte do sistema digestivo, da boca ao ânus, e costuma provocar inflamação profunda nas paredes intestinais. Já a Retocolite Ulcerativa acomete apenas o cólon e o reto, atingindo a camada mais superficial do intestino.

Sintomas exigem atenção


A gastroenterologista do Hospital do Servidor General Edson Ramalho, Flávia Machado, alerta que muitos pacientes convivem anos com os sintomas sem buscar ajuda médica. “As pessoas acabam tratando os sintomas como algo comum, e isso atrasa o diagnóstico”, afirma.

Os principais sinais incluem diarreia persistente, dores abdominais, perda de peso, fadiga, náuseas e presença de sangue ou muco nas fezes. Em casos mais graves, podem surgir anemia, febre e desnutrição.

Geraldo Camilo ressalta que as doenças também podem causar manifestações fora do intestino. “Elas podem provocar dores nas articulações, lesões na pele e problemas nos olhos”, explica.

Para os especialistas, o diagnóstico precoce é essencial para evitar complicações. “Quanto mais tempo a inflamação permanece sem controle, maior a chance de o intestino desenvolver cicatrizes, estreitamentos e fístulas”, alerta Geraldo Camilo.

Tratamentos para controle da doença

Embora não tenham cura definitiva, as doenças inflamatórias intestinais podem ser controladas com medicamentos, mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional e, em alguns casos, cirurgia.

Segundo Geraldo Camilo, os imunobiológicos revolucionaram o tratamento. Esses medicamentos atuam de forma precisa no sistema imune e ajudam a bloquear a inflamação. “O objetivo atual é alcançar a remissão profunda, ou seja, não basta o paciente se sentir bem; é preciso que o intestino esteja cicatrizado e sem inflamação”, afirma o médico.

A cirurgia também segue tendo papel importante em alguns casos. “Ela é indicada quando há complicações que os medicamentos não conseguem resolver, como fístulas complexas, abscessos, estreitamentos intestinais ou ausência de resposta ao tratamento clínico”, explica Geraldo Camilo.

Segundo ele, na Retocolite Ulcerativa grave, a cirurgia pode até ser curativa. “Já na Doença de Crohn, a cirurgia trata as complicações, mas não elimina a doença”, pontua.

Exames do Hospital Edson Ramalho ajudam na investigação das doenças

O diagnóstico precoce depende diretamente da realização de exames especializados, principalmente a colonoscopia e a endoscopia digestiva alta, considerados fundamentais para identificar inflamações e alterações no trato digestivo.

No Hospital do Servidor General Edson Ramalho (HSGER), gerenciado pela Fundação PB Saúde, a procura pelos exames segue em alta. Entre janeiro e a primeira quinzena de maio deste ano, foram realizados 224 exames de colonoscopia e 445 endoscopias digestivas altas na unidade hospitalar.

“A colonoscopia é um exame primordial para o diagnóstico dessas doenças. Já a endoscopia também pode ajudar, especialmente na Doença de Crohn, porque ela pode acometer partes mais altas do trato digestivo”, explica Flávia Machado.